domingo, 28 de novembro de 2010

Poema numa esquina de Paris



Dezenas e dezenas de pessoas passam ininterruptamente ao longo do passeio.

Umas para lá.

Outras para cá.

Umas para cá.

Outras para lá.

Mas cada uma que passa

tem de fazer na esquina um pequeno rodeio

para não se esbarrar com o par que aí se abraça.

Olhos cerrados, lábios juntos e ardentes,

tentam matar a inesgotável sede.

Através dos seus corpos transparentes

lê-se na esquina da parede:

DANS CETTE PLACE A ÉTÉ TUÉ

MAURICE DUPRÉ

HÉROS DE LA RESISTANCE.

VIVE LA FRANCE.

(António Gedeão)

























terça-feira, 16 de novembro de 2010

Narrativa da Imagem

Esta imagem conta duas histórias numa só. Temos, lado a lado, o ritual de chegar a casa. Dum lado, uma mulher com cerca de 35 anos, elegante e com classe, que chega do trabalho ao fim da tarde e pendura cuidadosamente a mala num cabide. Contudo, não é uma mulher enfadonha; esta é uma mulher com atitude, apreciadora de arte que trata a mala como tal, não como um simples acessório (daí a fotografia e o papel de parede). E do outro lado, temos uma jovem descontraída que chega a casa depois de uma saída e deixa a mala no chão, junto ao gira-discos, assim como faz com as botas – porque como dizem os americanos, é too cool to care.

(Texto de Renato Santos)



- Projecto realizado com a parceria de Renato Santos, no âmbito da disciplina de fotografia de produto, para a marca Red Oak.

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Monte dos Judeus ou Monte de Júpiter?

A saudade transpira pelos ossos, as faces pálidas denunciam a vontade de voltar... Fotografia do tempo, congelada, estática e sólida... interrogo-me sobre as estórias espalhadas, as lágrimas caídas, sepultadas também sob o manto decrépito dos epitáfios sepulcrais, que se fragmentam socumbindo á implacável fúria do tempo. Amor, paixão, vingança, saudade...paz! Sim, violenta paz, que se entrenha em cada poro vivo e quente, talvez concedida pela luz melancólica que espalha serenidade e que apazigua. Aquela cidade de pedra, erguida insistentemente ao longo dos anos, lembra a origem, o pó e a fragilidade da vida. O Monte de Júpiter, outrora chamado. Planeta da sorte, como se sorte, fosse estar sepultado, longe de toda a vil confusão, parafernália de intrigas e dissabores que a vida pode comportar. E é este doce e sereno calor que chama e faz desejar, ter saudade da memória, ter saudade da lembrança, de chorar pela ausência e temer pela distância.

- Projecto realizado com a parceria de Jordi Selva














segunda-feira, 1 de novembro de 2010



Pan Memories

È fácil olhar para trás, e encontrar, entre tumultos e gritos que nunca foram entendidos, momentos que fazem as pessoas sorrir além das suas trivialidades. Cada toque, cada gesto, cada palavra, cada imagem tem o poder de transcender dos eu estado e tornar outro dia qualquer no dia em que algo aconteceu.
È fácil olhar para trás, mas nem sempre encontro as imagens que procuro. Os meus olhares esmorecem em colagens e costuras do que pensei ver. E nas imagens procuro o que deixei para trás: cada toque, cada gesto, cada palavra.

(Texto de Renato Santos)